PORTAL ROCK PRESS – BR

June 3rd, 2009

Quem pensou que a homenagem à imigração japonesa se limitou ao que passou na TV, pode ficar surpreso em saber que a festa se estendeu ao underground com a banda Hellsakura. Encabeçada pela incansável Cherry, a banda lançou recentemente seu CD split com os japoneses do Kamisori e manda ver um punk rock à Ramones + Motörhead. Por Márcio Sno


Entrevista

CH-CH-CHERRY BOMB!

Márcio Sno

Encabeçada pela incansável Cherry, a banda lançou recentemente seu CD split com os japoneses do Kamisori e manda ver um punk rock à la Ramones (com direito a uma música dedicada a eles) com pitadas generosas de Motörhead. Dá pra ter uma idéia da massa sonora que sai daí? Agora imagine esse som misturado com os tradicionais taikôs japoneses? Pois é, eles também fizeram isso e estão dispostos a evoluir mais para realizar o sonho de ir tocar na terra do sol nascente no próximo ano. Go, little japs! Go!

Essa homenagem aos cem anos da imigração japonesa com o CD split foi programada ou nada mais que uma feliz coincidência?

Cherry: Foi uma coincidência mesmo! O primeiro show da banda foi em 2006, no “Dia mundial do Rock”, e de lá pra cá foi o tempo de fazer shows e gravar os sons, divulgar na web. Neste ano de 2008 lançamos o split com a banda japa Kamisori!

Ouvindo as músicas do Hellsakura, mesmo cantadas em português e inglês, tive a impressão dos vocais soarem meio japonês… Isso é fato, proposital ou trata-se apenas de uma viagem minha?

Cherry: É viajem, acho… Bem, acho que é porque não tenho nariz por ser nikkey e o vocal acaba ficando com um timbre esquisito mesmo… (risos)

Cherry, tenho a impressão de que o som que você faz foi cronologicamente ficando mais rápido e sujo. O que diferencia o Hellsakura do Okotô e do Hats?

Cherry: Começando pelo Okotô que eram duas guitarras, essa banda tinha uma pegada metal, HC, punk e na época do álbum Cobaia a gente foi ficando bem rápido em algumas músicas, como a “City of Peace”, que tem participação do Wattie Buchan (The Exploited), era uma época Loco Live total! Quando comecei a tocar bateria era para poder ter mais independência entre o vocal e a guitarra, comecei achar que tudo que tava compondo estava muito igual… Aí surgiu o Hats, que era uma experiência nova, tocar com as meninas que tinham a mesma linguagem em se tratando de letras, por exemplo. Toquei bateria também com Elektrobillys, banda de psychobilly de que tenho muitas saudades. O Hellsakura foi minha volta às raízes para o vocal e guitarra. Conheci o Napalm e ele gostava das mesmas bandas de punk rock às desgraceras da vida… E o baterista Bart conheci dentro da Orquestra de Baterias aqui de São Paulo… Será que consegui responder a pergunta?

Sim, sim! O som de vocês tem bastante influência de Ramones – olhando no geral, muitas bandas novas bebem da mesma água. Você acha que isso ocorre porque Ramones é muito bom mesmo ou porque as bandas “grandes” da atualidade não têm mostrado coisas boas para se tornarem influenciáveis?

Cherry: Ramones é uma banda simples, mas se for ver todas as músicas deles… É um material muito vasto e rico de maluquices sonoras dentro do punk rock, nós adoramos, sim, mas temos outras influências que vão fazendo com que nossa banda tenha personalidade própria, outras bandas grandes que mandam coisas boas, sim, mas os clássicos do punk rock, metal, hardcore são muito marcantes nas nossas vidas!

Como e por que o Kamisori foi escolhido para dividir o split com vocês?

Cherry: Através do Rafael, do selo Karasú Killer, que está no Japão. Ele mostrou a banda e eu pirei com o som deles, um psycho, motorhedão acelerado. Mostrei pro Renato, da Ataque Frontal, que estava curioso também e fechamos a parceria.

E me responda uma coisa: que baixo é aquele do Kamisori?

Cherry: Um Up Right Bass só que em vez de acústico ele é elétrico… Doidera, né?!

Total!. E como foi a performance com o Setsuo Kinoshita e Wadaiko Sho? Como foi essa mistura do tradicional taikô com as guitarras modernas do punk?

Cherry: Isso foi um sonho realizado! Eu ouvia esses taikôs quando fiz a parte tribal da bateria, e posso dizer que o Setsuo chegou junto em termos de pegada, montou o seu set de taikôs e deu pra música um som de montanha! O Setsuo disse que adorou tocar com uma banda de rock, até então eles tinham feito jams com grupos tradicionais de música japonesa ou jazz e com o Hellsakura a gente não precisou segurar o som dos taikôs. Foi perfeita a energia e o contraste!

Além dos sons do CD, vocês possuem mais? Como conseguir?

Cherry: O split com Kamisori é o nosso primeirão, pode ser adquirido pelo site da London Calling [http://www.londoncalling.com.br] ou através do site da Karassú Killer [www.karaskiller.com] fora do Brasil. No Japão tem muitas lojas e sites online também, e com a banda pode ser nos shows mesmo ou pelo e-mail.

Cherry, além de tocar guitarra você também se aventurou tocando em uma orquestra de baterias, junto com o Bart. Como foi isso?

Cherry: Eu estudei bateria com o Dino Verdade e ele é fogo, respira bateria e fiquei doente também em tocar junto com mais 30 bateristas. Por exemplo, imaginem 30 caixas de bateria fazendo KÁ ao mesmo tempo – o coração sai pulando, é muita energia!

Você é veterana no underground, o que acha da influência da internet na divulgação de bandas independentes? E em relação aos downloads de MP3? Mais: de que forma isso tudo contribui e prejudica o seu trabalho?

Cherry: Olha, acho que mais ajuda do que atrapalha, a única coisa é que os internautas não podem ficar preguiçosos e ficar vendo a vida passar no You Tube (por mais que eu também seja meio zumbi na net…). Quando gravamos um álbum não fazemos para as pessoas ficarem sentadas no PC e sim, indo nos shows, mas o fato é que tem muita gente online atrás de MP3 etc. E a banda disponibiliza, sim, em alguns sites como My Space, Trama Virtual, Overmundo e no nosso.

Nos anos 90, a banda independente que cobrava cachê era taxada como mercenária. Hoje em dia é muito comum a banda pedir uma “ajuda de custo”. O que pensa a respeito?

Cherry: Mercenária, pôxa, não me lembro disso… Sempre teve muitas bandas na ativa na cena do rock fazendo coisas boas e outras que não se importam com nada mesmo, às vezes nem com o som, muito menos com cachê… Na minha opinião, as bandas têm que ter músicas para produzir seus CDs, lançar, fazer parcerias com estúdios, selos, merchandising, vídeo clipes etc. porque é tudo bem aproveitado, isso gera despesas. Portanto se uma ajuda de custo faz a banda ir pra
frente então, Let’s Go! Mas as bandas sabem também o que é um bom “cachê”.

Hoje conseguem sobreviver só da banda? O que fazem além?

Cherry: Não, todos têm um trabalho fora a(s) banda(s). Eu trabalho no Hangar 110 [casa de shows de São Paulo] e produções de áudio, o baixista Napalm é ilustrador, designer gráfico, e o Bart faz uns extras como baterista e roadie.


O baixista Napalm também é artista plástico e ficou responsável por todo o visual da banda. Quais outros trabalhos ele vem realizando e onde podemos conferir mais da sua arte?

Napalm: Na verdade, não sou artista plástico, minha formação é de designer gráfico, graças aos meus pais que apostaram em mim, eu consegui entrar numa faculdade pública. Acho que acabaram caindo na real que eu não seria um advogado, médico ou militar (risos). Passo noites como uma coruja, desenhando… Minha munição é uma caixa de lápis de cor e canetas, pincéis, papel bom… Eu acredito que o desenho ultrapassa a escrita, realmente é uma ciência e, hoje em dia, não acho legal ver pessoas usando papel somente nas impressoras.

Hoje eu trabalho com criação de estampas de camisetas, arte final, faço alguns flyers para amigos. Acho que o visual da banda a que você está se referindo deve ser a capa do nosso split e algumas camisetas e cartazes de show do Hellsakura que eu fiz. Eu gosto desse quase do it yourself. Ter a banda, gravar, tocar, fazer os desenhos… Mas muitos amigos nossos já fizeram cartazes pra gente, muito mais legais que os meus… Vejam aqui algumas ilustrações: www.carbonmade.estenio.com

A tradicional cultura nipônica é marcada por movimentos leves, que remetem à concentração, música calma. Em contraponto, os jovens japoneses (também conhecidos como jpop) ouvem músicas barulhentas, roupas e cabelos coloridos e ousados. Como você observa esse contraste?

Cherry: No Japão a rotina é sempre trabalho, estudo, trabalho, estudo. A cultura é muito diferente, atitudes de responsabilidade, humildade, respeito são bem cobradas pela sociedade, acho que isso gera um comportamento contido e eles se jogam no som das bandas e no visual para se expressar, mas não é regra, né?

Falando em imigração japonesa, a mídia sempre divulga que os japoneses trouxeram só coisas boas. Na sua visão como descendente e por sempre usar o termo “invasão japonesa”, o que você pode citar de ruim que foi trazido pelos japoneses e o que o Japão tem de bom e que não é mostrado por aqui?

Cherry: Ah, comer sushi e sashimi é ruim!! Sou vegetariana!! (risos) Bem, a invasão japonesa de que a gente fala é mais inspirada nos monstros e heróis japs que não deixam de ser trash, né? Mas o que me vem à cabeça com essa pergunta é que na época da guerra tinha no Brasil um grupo de imigrantes fanáticos, eram os ShindoRemen, que não aceitavam que o Japão tivesse perdido a guerra, então cometiam atrocidades com outros japoneses que aceitavam e levavam sua vida próxima do estilo brasileiro de ser… Bem, isso nem é muito comentado mesmo dentro da minha família, quero dizer que o radicalismo e preconceito já vinham daquela época e hoje, ao contrário, vemos muitos brasileiros trabalhando no Japão e acabam sofrendo um pouco disso.

Vocês têm ouvido muito rock japonês. Pode traçar um breve panorama da cena underground nipônica?

Cherry: Olha, além dos Kamisoris, queria citar o NEK [Niños em Kombate], banda nova que tem letras que incomodam e divertem os japs, gosto das meninas do The Soup, Spookey e o Corruption of Peace, que é uma banda formada por japoneses com vocalista americano, e as Yellow Machine Gun…

Napalm: Eu gosto muito do Guitar Wolf!

O Mukeka di Rato com toda a sua tosqueira já tocou no Japão. Quando será a vez do Hellsakura?

Cherry: Ano que vem de mala e cuia…

Napalm: E pensamento positivo!

Links relacionados:

www.hellsakura.com
www.myspace.com/hellsakura
www.ataquefrontal.com
www.karasukiller.com
www.carbonmade.estenio.com
www.fotolog.net/estenio

One Response to “PORTAL ROCK PRESS – BR”

  1. Julinho says:

    meu parabéns pelo teu site. Está muito bem almejado, com informação muito boas e com um layout limpo e elegante. Quando tiver tempo visita meu site http://notebooksacer.blogspot.com

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